domingo, 16 de novembro de 2008
Migração
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Ilhas Virgens Americanas: futuro desanimador
À época, a seleção das Ilhas Virgens Americanas ocupava a 202ª posição do ranking da Fifa. Essa posição colocava o time na última colocação entre todas as nações que são afiliadas ao máximo organismo do futebol mundial. Portanto, o resultado elástico não chegou a ser exatamente uma surpresa.
Uma semana antes de ser impiedosamente goleada, a seleção das Ilhas Virgens Americanas fez dois amistosos com a seleção vizinha das Ilhas Virgens Britânicas. E nos dois jogos, ocorreram dois empates: 1 a 1 e 0 a 0. Esses resultados trouxeram um pouco mais de esperanças aos habitantes das ilhas, que poderiam sonhar em dar trabalho aos granadinos, tal qual seus vizinhos fizeram com a seleção das Bahamas, onde empataram os dois jogos e não se classificaram para a próxima fase da competição por apenas um gol.
No entanto, a derrota por 10 a 0 acabou por jogar uma “pá de cal” nas esperanças de progresso de seu selecionado, que assim deverá aguardar por mais longos quatro anos a chance de poder mostrar ao mundo uma evolução no futebol. E com um detalhe: todos os atletas das Ilhas Virgens Americanas são amadores.
Das disputas entre europeus à badalação do turismo
Descobertas em 1493 por Cristóvão Colombo, as Ilhas Virgens Americanas foram objeto de intensa disputa militar entre espanhóis, britânicos, holandeses, franceses e dinamarqueses devido à sua posição estratégica no Mar do Caribe. Depois de quase duzentos anos de disputas, os dinamarqueses saíram vitoriosos e colonizaram as ilhas principais do local, a ilha Saint Thomas, a ilha Saint John e a ilha Saint Croix. Com isso, fundaram as cidades que mais tarde se tornariam as principais do território: a capital Charlotte Amalie (em homenagem à Rainha da Dinamarca à época), Cruz Bay e Groveplace.
Dois séculos depois de ter assumido seu controle, a Dinamarca passou a enxergar as ilhas com outros olhos: elas eram economicamente inviáveis de sustentar e não podiam fornecer mais meios de riqueza. Com isso, a ilha passou a receber cada vez mais menos investimentos, sofrendo de um abandono lento e aparentemente irreversível.
Foi nesse contexto que os Estados Unidos surgiram com uma proposta de compra das ilhas: pagariam 25 milhões de dólares para a Dinamarca para assumir o total controle delas. A Dinamarca aceitou a oferta e com isso as Ilhas Virgens Americanas assumiram a sua atual denominação.
Sob o domínio americano tornaram-se um dos principais destinos de aposentados e trabalhadores em busca de sossego longe do continente. Conseqüentemente, os investimentos em infra-estrutura cresceram e atualmente o território recebe muitos turistas provenientes não só dos Estados Unidos, mas também dos milhares de cruzeiros que usam seus portos para reabastecimento e descanso. Para ser ter uma idéia da quantidade de turistas que por lá passaram, basta dizer que as Ilhas Virgens Americanas, que têm cerca de um terço do tamanho da cidade de São Paulo, receberam mais turistas que toda a cidade do Rio de Janeiro no ano.
Liga unificada e disputa por espaço
Fundada em 1989, a Federação de Futebol das Ilhas Virgens Americanas somente organizou sua seleção em 1998. A explicação para o início tardio foi a falta de campos de futebol que apresentassem uma mínima estrutura para a prática do esporte. Também pesou o fato de que, a exemplo do país que as controlam, o futebol não ser o esporte mais popular das ilhas, perdendo para o basquete e o beisebol e com isso não despertar nem a atenção do governo nem da população.
Para ratificar sua condição de uma das seleções mais fracas do mundo, as Ilhas Virgens Americanas realizaram 23 jogos e ganharam somente o primeiro, disputado contra suas vizinhas Ilhas Virgens Britânicas, por 1 a 0. Logo depois dessa vitória, as Ilhas Virgens Americanas passaram a conviver com placares adversos e elásticos: 12 a 1 e 11 a 0 contra o Haiti, 11 a 0 contra Guadalupe, 14 a 1 contra Santa Lúcia e 11 a 1 contra a Jamaica. Esses resultados contribuíram para que as Ilhas Virgens Americanas caíssem para a última posição do ranking da Fifa. Mas, mesmo com os resultados ruins, a seleção ficou com o incômodo posto somente por um mês.
Com a adaptação do Lionel Roberts Park para receber o futebol, a realização da Liga de Futebol das Ilhas Virgens Americanas foi viabilizada e passou a ser disputada em 1997, tendo como primeiro campeão o MI Roc Masters. De lá para cá, os maiores vencedores da Liga são os times do Positive Vibes, Upsetters e Waitikubuli United, com duas conquistas para cada um. A fórmula de disputa da Liga das Ilhas Virgens Americanas é interessante: existe uma liga para os times de futebol das ilhas de Saint Thomas e Saint John e outra liga para os times da ilha de Saint Croix. O campeão e o vice dessas duas ligas formam um torneio quadrangular final com turno e returno sagrando-se campeão o time que somar mais pontos.
Mesmo com o incentivo da Fifa na adaptação do estádio principal das Ilhas Virgens Americanas, o principal desafio da federação nacional é atrair mais adeptos para o esporte. O zagueiro Dwight Ferguson, em entrevista concedida logo após a goleada sofrida para Granada foi taxativo: “Vejo um futuro desanimador para nosso futebol”. Talvez com um pouco mais de incentivo da Fifa e dos órgãos educacionais do território, a seleção das Ilhas Virgens Americanas possa ser vista de fato como “águias elegantes”, tal qual seu apelido.
*Texto de minha autoria publicado na coluna "Conheça a Seleção" do site Trivela
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Rep. Centro-Africana: A pior do continente
O incidente aconteceu na região norte da República Centro-Africana. Como o próprio nome diz, o país está localizado no centro da África e não tem saída para o mar, fato que agrava as atividades comerciais do país. Como quase todos os países do continente, a República Centro-Africana apresenta conflitos internos de milícias rebeldes contra o governo, altos níveis de mortalidade infantil, expectativa de vida cujo limite não ultrapassa os 45 anos e por muito tempo foi governada por ditadores.
Apesar de todos esses fatores negativos, a República Centro-Africana é cortada por vários rios navegáveis, o que faz com que as exportações de frutas, legumes e diamantes (embora grande parte desse último saia do país em forma de contrabando) gerem boas fontes de renda para o país.
De fornecedor de escravos a império e ditadura
Até meados do século 19, a região da República Centro-Africana era uma confluência harmoniosa de vários povos tribais africanos, sobretudo os bantos. A partir da metade desse século, no entanto, o contato com os povos muçulmanos do norte da África (sobretudo os egípcios e sudaneses) atraiu a cobiça de militares e traficantes de escravos, fazendo com que muitos bantos fossem escravizados e levados para diversos lugares, inclusive o Brasil.
Ao mesmo tempo, os franceses navegavam em expedições pelo rio Congo e colonizavam as terras que o margeavam. Um dos afluentes do rio Congo, o rio Ubangui permitiu aos franceses a penetração no território da República Centro-Africana e em 1889 a cidade de Bangui foi inaugurada. Mais tarde, ela se tornaria a capital da colônia que os franceses denominariam de “Ubangui-Shari”, que era a junção dos nomes dos rios mais importantes da região.
Em 1958, Ubangui-Shari tornou-se um território autônomo da França e dois anos depois se tornou independente do país europeu, mudando seu nome para República Centro-Africana. Desde então, sucessivos golpes de estado e confrontos internos ocorreram e a república até tornou-se império por dois anos. Logo após a restauração da república, mais regimes ditatoriais se sucederam e somente em 2005 um governo foi democraticamente eleito. Mesmo assim, o país continua enfrentando problemas internos e os conflitos com milícias rebeldes são constantes, desencorajando o turista a conhecer o norte e o nordeste do país, regiões controladas pelos rebeldes.
Início animador, muitas interrupções
Como na maioria das colônias africanas, o futebol chegou à República Centro-Africana pela influência dos franceses. No entanto, diferentemente de outras colônias que organizaram seus times ainda sem conquistar a independência, a República Centro-Africana colocou sua seleção em campo somente depois de ter conquistado sua libertação da França. Em 1960, foi convidada a participar de um torneio de colônias e territórios franceses sediado em Madagascar, enfrentando a seleção de Mali e perdendo por 4 a 3. Para um primeiro jogo de uma seleção nacional que nunca havia sido reunida antes, o resultado foi considerado muito bom.
Um ano depois, a federação local era oficialmente fundada e as filiações à Caf e à Fifa foram homologadas nos outros dois anos posteriores à fundação. No entanto, por motivo de conflitos internos recorrentes, somente em 1973 a seleção centro-africana voltou a se reunir, dessa vez para disputar as eliminatórias para a Copa da África de 1974. E na primeira partida contra a Costa do Marfim foi bem, ganhando por 4 a 2. Poderia até ter ido mais longe, pois perdeu somente por 2 a 1 no jogo de volta. Mas, por conta de problemas financeiros, a República Centro-Africana foi desclassificada das eliminatórias. Para a Copa do Mundo de 1974 e de 1982, a desistência de disputar as eliminatórias também ocorreu por falta de dinheiro.
Um pouco antes do fracasso das eliminatórias africanas, a Liga Centro-Africana de Clubes teve início em 1968 e teve como campeão o Cattin, clube que já não existe mais. Como reflexo dos conflitos armados internos, a Liga não foi disputada em 1969, 70 e 72. Durante a década de 70, a República Centro-Africana viu o domínio do Real Olympique Castel, que logo depois se tornaria o Olympic Real.
De 1976 a 1988, a seleção centro-africana ficou sem saber o que era ganhar. Nesse meio tempo, Camarões e Congo foram seus maiores algozes: perdeu por 7 a 1 dos “Leões Indomáveis” e por 5 a 1 dos congoleses. A vitória tão esperada aconteceu frente ao Chade: 2 a 1 pela Copa CEMAC, que reúne os países que fazem parte da Comunidade Econômica e Monetária da África Central. Aliás, a Copa CEMAC é a responsável pela maior conquista do futebol centro-africano até o momento: dois vice-campeonatos nos anos de 1989 e 2003. Nas duas ocasiões, o título ficou com Camarões.
Enquanto isso, os centro-africanos viam um clube seriamente disposto a acabar com a hegemonia do Real Olympique Castel dentro do país. O Tempête Mocaf entre 1984 e 1997 conquistou seis títulos nacionais e ultrapassou o rival em número de conquistas.
Enfim, a disputa pela Copa do Mundo
O dia 9 de abril de 2000 converteu-se em uma data histórica para a República Centro-Africana. Pela primeira vez, o selecionado nacional iria realizar uma partida válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. Até um apelido foi criado para incentivar a seleção: “Veados do Baixo Ubangui”. O adversário era o Zimbábue, seleção com muito mais tradição no cenário africano e, portanto, muito difícil de ser batido. Os centro-africanos perderam os dois jogos, por 1 a 0 e 3 a 1. Mas em todos ficou o sentimento de que a República Centro-Africana podia sonhar com um futuro promissor para as próximas gerações.
Porém, a esperança no futuro veio abaixo com a falta de recursos da federação e novas revoltas internas causadas por rebeldes contrários ao governo vigente. Esses fatores causaram novamente a interrupção da Liga Centro-Africana em 2002 e sucessivas derrotas nas eliminatórias para a Copa da África. As dificuldades atingiram seu ápice em 2004, quando a federação centro-africana teve que desistir da disputa das eliminatórias para as Copas do Mundo de 2006 e 2010 e a Caf não permitiu a entrada dos clubes centro-africanos na Copa dos Campeões africanos por falta de pagamento à confederação. Com isso, a pontuação da República Centro-Africana no ranking da Fifa caiu vertiginosamente, fazendo com que o país ocupe atualmente a 198ª posição, o pior time africano.
Enquanto isso, os bons jogadores centro-africanos, sem espaço para mostrar seu futebol dentro e fora do país, migram para a Europa. Foi o caso dos atacantes Foxi Kethevoama e Marcelin Tamboulas e do meio-campo Boris Sandjo, artilheiro maior da República Centro-Africana, com 6 gols. Enquanto Foxi e Tamboulas tentam a sorte no Birkirkara de Malta, Sandjo joga no Ujpest, da Hungria.
Resta agora saber se daqui pra frente os centro-africanos conseguirão um pouco de paz e dinheiro para fazer aquilo que mais gostam: jogar futebol e dar um pouco de alegria a seu povo sofrido.
*Texto de minha autoria publicado na coluna "Conheça a Seleção" do site Trivela
sábado, 2 de agosto de 2008
O primeiro a gente nunca esquece
Há 20 anos atrás, um menino vê seu time campeão pela primeira vez. Numa casa da Vila Ema, Zona Leste de São Paulo, o garoto de 7 anos estava brincando com seus primos na garagem, mas por dentro o menino não se cabia em tanta euforia. Não era aniversário dele e nem de nenhum de seus primos ou parentes. Toda a família dele se reunia para assistir o 2º jogo da decisão do Campeonato Paulista daquele ano entre o Corinthians e o Guarani. Até então, o menino e os seus primos nunca haviam visto o Corinthians ser campeão.
A tarefa não era fácil para os comandados de Jair Pereira. No 1º jogo disputado no Morumbi, empate de 1 a 1 com aquele golaço de bicicleta do Neto e ele gritando para um Morumbi calado: “Eu sou f...”. O Guarani tinha a vantagem do empate, por isso aparentava estar muito mais tranquilo que o alvinegro. Além disso, o Bugre tinha um time respeitável, com Neto e João Paulo. O Corinthians corria por fora, estava desacreditado e talentos despontavam, caso do goleiro Ronaldo e do jovem atacante Viola.
Para o jogo em Campinas, o Guarani tinha a vantagem de jogar pelo empate no tempo normal e na prorrogação. Quase 50.000 pessoas lotaram o Brinco de Ouro. E o jogo começa duro, pegado. Bola vai, bola vem, a cada chance perdida a Fiel lamentava a falta de Edmar, que estava com a Seleção Brasileira. O menino e os seus primos acompanham o silêncio de seus pais e tios, apreensivos com a pressão do Guarani. No intervalo, os meninos voltaram as suas brincadeiras e os tios para as suas cervejas e cigarros. Os 15 minutos pareciam uma eternidade para todos. Ninguém via a hora de chegar o 2º tempo e torcer muito para que o Corinthians melhorasse.
O que não aconteceu. A pressão bugrina perdurou, porém a brava defesa corinthiana soube neutralizar todos os ataques e o jogo acabou empatado. Um clima total de desolação tomou conta da garagem. Os tios comentavam: “Se em 90 minutos não fizeram nada, não será em 30 que farão, ainda mais mortos do jeito que devem estar”. As frases proferidas deixaram aquele menino ainda mais apreensivo do que estava. “Será que vai ser que nem no ano passado?”, pensava ele. Ninguém queria mais brincar. Todos os guris viam os pais apreensivos e sentiam isso, pois quando a gente é criança, imaginamos os pais como fortalezas inexpugnáveis, que nada sentem e nada temem.
Chega a prorrogação. Em determinado momento, um tio do menino levanta e dá um murro na mesa. Sai andando e vai fumar um outro cigarro na rua. Ninguém pisca o olho diante da televisão Sharp (aquela típica dos anos 80, com o gabinete de madeira e os canais com as luzinhas em vermelho dos canais, lembram?) e o 1º tempo da prorrogação termina.
Começou o 2º tempo da prorrogação e Wilson Mano arrisca uma descida ao ataque. Um fio de esperança cresce em todos. Ele arrisca de fora da área um chute feio e sem direção com o pé direito, porém o chute sai forte. Um garoto franzino surge de trás da zaga do Guarani sem ninguém saber, mete o pé na bola e mata o Sérgio Nery. A bola desviada vai entrando suavezinha, olhada pelo estupefacto goleiro do Guarani, que nada pôde fazer. A Fiel se ergue lentamente atrás do gol bugrino e grita o gol, o maldito gol que desafoga as tensões dos meninos e dos tios daquela garagem; lava a alma de todos os irmãos Fiéis no Brasil inteiro. Viola tinha 19 anos e marcava ali o gol que colocava o Corinhians na frente do placar e com a mão na taça. Nem deu tempo de o Guarani fazer alguma coisa, tal atordoado estava. Termina o jogo e o Corinthians, desacreditado que estava, levanta o título que não ganhava havia 5 anos.
Aquele menino de 7 anos que estava lá naquele dia e viu seu time ser campeão pela primeira vez comemorou como gente grande aquele título e voltava as aulas no dia seguinte rouco de tanto gritar. O menino que sentia orgulho de vestir a camisa corinthiana era esse humilde escrevente.
O GOLAÇO de Neto no 1º jogo da Final:
Melhores momentos do 2º jogo da Final:
Ficha técnica
Guarani 0 X 1 Corinthians
Local: Estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas-SP
Árbitro: Arnaldo César Coelho-SP
Público: 49.604 pagantes
Cartões vermelhos: Paulo Isidoro (Guarani) e Paulinho Carioca (Corinthians)
Gol: Viola, aos 5'/1T (Prorrogação)
GUARANI
Sérgio Néri; Marquinhos Capixaba, Ricardo Rocha, Vágner Bacharel e Albéris; Paulo Isidoro, Barbiéri (Mário), Marco Antônio Boiadeiro e Neto (Careca Bianchesi); Evair e João Paulo. Técnico: Carbone.
CORINTHIANS
Ronaldo; Édson Boaro, Marcelo, Denílson e Dida; Márcio (Paulinho Gaúcho), Biro-Biro, Éverton e João Paulo; Viola e Paulinho Carioca. Técnico: Jair Pereira.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Djibuti: Pobreza na economia e no futebol
Um pouco maior que o estado de Sergipe, Djibuti fica numa posição extremamente importante no leste da África. Está localizado no chamado “Chifre”, que é a região do continente onde o Mar Vermelho e o Oceano Índico se encontram. Essa estratégica posição rende bons dividendos ao país, pois o porto da capital, que também se chama Djibuti, é um importante entreposto comercial e serve de apoio para muitas embarcações provenientes da Ásia com destino ao Canal de Suez.
O país inteiro é muito quente e árido. Para se ter uma idéia, dos quase 23 mil quilômetros quadrados do país apenas 20 são compostos por rios ou lagos. Com tão pouca quantidade de água, fica fácil compreender o porquê de o país figurar como um dos mais pobres do mundo e sempre necessitar de ajuda humanitária por parte dos países mais desenvolvidos e da Organização das Nações Unidas.
Do pioneirismo islâmico às guerras civis
As origens de Djibuti datam do século X a.C. Os dois principais povos da região, os nômades afar e o somali, dividiam o comércio de peles e especiarias com os egípcios, persas e indianos. No século IX d.C, esses dois povos foram os primeiros africanos a conhecer e a se converter ao islamismo.
Depois de algum tempo em total isolamento, Djibuti foi descoberta pelos franceses, que foram os primeiros europeus a fazer contato com os povos da região. À época, a construção do Canal de Suez estava no final e a França estabeleceu um tratado de paz com os afar e os somalis, constituindo assim o protetorado da Somália Francesa. Em torno do porto construído pelos franceses na costa oeste, a cidade de Djibuti foi inaugurada e converteu-se na principal cidade do protetorado. Não à toa, a seleção de futebol de Djibuti é conhecida como “Os ribeirinhos do Mar Vermelho”.
No decorrer do século 20, um grupo étnico chamado issa, do ramo dos somalis, passou a se rebelar contra os franceses. Pregava a dominação total da região do “Chifre da África” pelos nativos e era totalmente contrário à presença européia na região. Por outro lado, os afar continuavam ao lado dos franceses. A inimizade entre esses dois povos cresceu e deu origem a violentos desentendimentos internos que foram resolvidos em parte quando Djibuti declarou a independência da França em 1977.
Mesmo após a declaração da independência, os dois povos continuaram com problemas entre si. Tudo por causa do presidente eleito, de etnia issa, que não agradou a maioria da população do país, que é afar. Desde 1988 Djibuti já enfrentou duas guerras civis, o que agravou ainda mais as condições de vida da população, gerando mais fome e pobreza. Em junho último ocorreu uma invasão não autorizada de soldados da Eritréia a uma parte do território de Djibuti, o que pode desencadear outra crise interna no país.
Longas interrupções e futebol abaixo da média
Devido à grande influência dos franceses e dos soldados da Legião Estrangeira, cuja sede africana fica em Djibuti, o futebol é o esporte mais popular da ilha. No entanto, assim como a situação econômica, o futebol no país também é pobre. São apenas oito clubes profissionais filiados à Federação, que disputam a Liga e a Copa de Djibuti. Não há rebaixamento e todos os jogos são disputados no “Stade du Ville”, reformado pela FIFA e que conta com grama artificial, devido à escassez de água para a manutenção da grama natural.
Apesar de ter declarado sua independência há apenas 31 anos, há registros que atestam que Djibuti teve uma seleção formada pela primeira vez em 1947, quando perdeu da Etiópia por 5 a 0. Fundada em 1979, a federação djibutiana de futebol somente organizou sua seleção cinco anos depois e tomou outra goleada da Etiópia: 8 a 1. E foi preciso mais cinco anos para que a primeira vitória de Djibuti viesse com um 4 a 1 num amistoso disputado contra a seleção do Iêmen.
Interessante notar que, um ano antes da primeira vitória do selecionado, o Campeonato Djibutiano havia sido iniciado de forma oficial. O sistema de disputa consistiu em turno e returno com quatro participantes. O primeiro vencedor foi o Etablissements Merill, de Djibuti.
Um ano depois, a guerra civil impediu que o campeonato prosseguisse e que a seleção entrasse em campo e participasse de qualquer manifestação futebolística. Durante cinco anos a seleção nacional não jogou e foi preciso esperar até o ano 2000 para que a população de Djibuti pudesse ver o jogo da seleção no país. Porém a espera valeu a pena: a seleção nacional entrava em campo contra a República Democrática do Congo, pelas Eliminatórias da Copa de 2002, as primeiras disputadas por Djibuti na história. E conseguiu um excelente resultado, empatando em 1 a 1. No jogo de volta porém Djibuti foi eliminada da disputa da vaga na Copa perdendo por humilhantes 9 a 1. Nos anos seguintes, sempre jogando fora do país devido aos conflitos internos, a seleção djibutiana sofreu mais goleadas: 7 a 0 e 10 a 1 para Uganda e 6 a 0 para a Etiópia.
Sete anos depois de jogar pela última vez no país, Djibuti obteve seu resultado mais expressivo no cenário internacional. Pela fase preliminar das Eliminatórias da Copa de 2010, Djibuti ganhou por 1 a 0 da Somália e passou para a próxima fase da competição. Esse resultado foi a primeira vitória em um jogo oficial na história do país, fato que converteu o atacante Yassin Hussein, do CDE (Compagnie Djibouti-Ethiopie), em herói nacional.
No âmbito doméstico, o campeonato djibutiano aumentou o número de clubes participantes de quatro para dez, sempre mantendo o mesmo sistema de disputa. O CDE, apesar de ser o clube mais popular por ter nascido dos trabalhadores da ferrovia que liga o Djibuti à Etiópia, perde em número de títulos para o Force Nationale de Police, que conta com a simpatia do governo do país.
O resultado positivo contra a Somália, no entanto, não contribuiu para afastar de Djibuti a fama de saco-de-pancadas: depois da vitória histórica, a seleção perdeu de Uganda por 7 a 0, de Ruanda por 9 a 0, do Malawi por 8 a 1 e da República Democrática do Congo por 6 a 0, sendo esses dois últimos confrontos válidos pelo grupo 12 das Eliminatórias Africanas. Em setembro próximo, Djibuti voltará a campo para jogar contra Malawi e encerra sua participação no torneio em outubro contra o Egito.
Resta saber se os “ribeirinhos” seguirão com a sina de derrotas largas ou se conseguirão ao menos um ponto na fase de grupos das Eliminatórias, permitindo que o povo sofrido tenha maiores esperanças no futuro.
*Texto de minha autoria publicado na coluna "Conheça a Seleção" do site Trivela

